sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Gabriela, Uma História de Amor

Esse é o nome do espetáculo que estará em cartaz no dia 21 de dezembro, às 19h, no Teatro Tobias Barreto. O espetáculo de dança terá a participação especial da Companhia de Danças Árabes Maíra Magno e do projeto Varrendo com Arte, o qual coordena e consiste em ensinar dança do ventre para os garis da Empresa Municipal de Serviços Urbanos e as mulheres do Sindicato de Empregadas Domésticas de Aracaju.

Em conversa com a neta de libaneses, Maíra Magno ela nos falou como sempre batalhou por meus ideais, e como senti-se uma autodidata, pois teve que compensar a falta de professores de Dança do Ventre aqui em Aracaju, assistindo vídeos e viajando. Estudou dança Contemporânea, Flamenco, Afro, Ballet Clássico por muitos anos, danças folclóricas nordestinas, música ocidental, música árabe, língua árabe, teatro, história e cultura dos povos árabes, além de um pouco de técnica vocal. Atualmente é acadêmica de Artes Visuais na UFS, abaixo você acompanhará um pouco de sua trajetória e como surgiu o Projeto Varrendo com Arte.

O Independente - Como iniciou na Dança do Ventre e como foi seu percurso até hoje?

Maíra Magno – Logo quando iniciei minhas aulas de Dança do Ventre uns 02 meses de aula, mais ou menos minha mãe me deu um vídeo daquela que é até hoje meu ídolo maior na Dança do Ventre, a Souhair Zaki, logo percebi que não ali não se parecia nem um pouco com o que estavam me ensinando. Dois meses depois, fui passar minhas férias em São Paulo, cidade onde nasci, e lá aproveitei para estudar a minha mais nova paixão, de inicio fiz um mês de aula com a Claudia Cenci, que estava em evidência na época, e me deslumbrei. Fui aos eventos, nas lojas, nos ateliês, descobri um mundo novo, foi nesse momento, que descobri, o que eu queria realmente ser.

Voltando a Aracaju, acabei me desentendendo nas aulas, pois eu perguntava para minha professora sobre as coisas que havia visto e aprendido em São Paulo e ela não sabia me responder, então abandonei as aulas e comecei a estudar através de vídeos.

E em 1998, quando Gisele Bomentre voltou definitivamente do Líbano, assim como a Fádua Chuffi, uma Líbano–Brasileira que até então residia em Nova York. E as duas começaram a lecionar no Brasil. Passei a ir fazer cursos com elas.

Estudava com as duas. Com a primeira eu aprendia o “contexto” da dança no oriente, com a segunda os passos, isso ainda vivendo em Aracaju, fazia um mês de aulas particulares por ano, e me virava os outros 11 meses sozinha. Mas sempre me senti mal com a minha dança, era tudo muito difícil e inacessível, até que eu tive contato com o trabalho do Mahmoud.

Em 2003 saí do país pela primeira vez, passei um
mês no sul do Egito com o Shokry Mohamed que eu havia conhecido através da Fádua Chuffi, conheci os vilarejos, a cultura Nuba, a cultura Said e cheguei até a ficar hospedada na casa de uma família de ciganos, a família Kenawe. Foi lá que nasceu minha paixão pelas danças populares. Do Egito fui ao Marrocos e depois passei um mês e meio entre Portugal e Espanha, estudando e trabalhando com o Shokry e dando uma série de cursos em Portugal.

Em 2006, fui ao Egito estagiar na Troup Reda e em uma festa que eu estava dançando, um grande produtor me viu e me convidou a trabalhar como free-lancer em alguns eventos.
Dancei em lugares importantes como o hotel Semíramis, o mesmo que a Dina trabalha, o Cairo Hilton e na Ópera do Cairo. Em 2007, fui contratada pelo Hotel Le Palace em Kartago na Tunísia, para ser bailarina residente do hotel, no mesmo ano fui a única bailarina do continente americano a ser selecionada para o Reality Show de Dança do Ventre Hezzy Ya Nawahem produzido pela LBC, a maior emissora de TV do mundo árabe.

O Independente - O que você busca, aonde quer chegar e quais são suas principais influências?

Maíra Magno - Não sonho ser estrela, sempre quis ser boa, mas não acrobática como as bailarinas do ocidente, mas graciosa, limpa, elegante e simples como as bailarinas clássicas egípcias que me influenciaram. E até hoje é isso que busco, estou satisfeita com o que alcancei e surpresa com o que conquistei nesses 11 anos sem me meter na “fogueira das vaidades”, que é como eu chamo o ambiente comercial da Dança do Ventre no Brasil.

Minhas maiores influências são: 1º Suhair Zaki, 2º Mahmoud Reda e 3º Zaza Hassan. Hoje em dia percebo que fui extremamente influenciada pelo que a Gisele Bomentre me falava quando eu ainda estava começando, e depois de 11 anos, estando presente em muitos dos lugares que ela esteve, vejo que encaro a dança de uma maneira muito parecida com a dela.

O Independente - O que aprendeu com suas apresentações e viagens?

Maíra Magno - O que eu aprendi é que cada país é um mundo, mas principalmente, que a dança no Oriente é uma coisa e no Ocidente é outra. Enquanto profissional é muito importante saber em que mercado quer atuar, porque cada mercado exige coisas distintas do profissional e em certos pontos não há intercessões, os caminhos são absolutamente díspares.

O Independente - Qual foi a diferença que sentiu fora do Brasil?

Maíra Magno - Muito grande, vou ver se eu consigo explicar em palavras. A principal é que no mundo árabe dá para se viver de dança, no ocidente se vive de aula, de vendas de material, de costura, mas não de dança. Essa é maior diferença, lá você é bailarina e pronto, ganha bem e dá para viver decentemente só dançando.

Agora, as exigências do mercado são absurdamente distintas, aqui o nível técnico é muito mais importante que lá, até porque nós basicamente dançamos para alunas e estas querem ver em você o que elas não são capazes de fazer. No Oriente a beleza física é o mais importante, seguida do carisma, a técnica entra em terceiro ou quarto lugar na equação.

O Independente - O que mais lhe marcou até aqui em sua carreira?

Maíra Magno - Dançar na ópera do Cairo. Acho que foi o que mais me emocionou, me lembro de estar à tarde passeando pelo complexo da ópera e sonhando em um dia dançar lá, quando voltei para o hotel tinha um recado de meu empresário dizendo que eu tinha um show para fazer lá a noite. Mas cada espetáculo que estréio aqui em Aracaju me trás uma satisfação ímpar.

Este ano, no Festival do Projeto Social, consegui um desempenho das alunas que a anos tentava. São satisfações distintas, uma como artista, outra como professora e coreógrafa, só que tenho de admitir que a segunda seja mais plena, especialmente quando você leva a dança para pessoas que jamais teriam acesso a ela.

O Independente - O que você diria para quem está começando agora na Dança do Ventre?

Maíra Magno - Olha o mais importante é definir logo o que você quer ser, e em que mercado quer trabalhar, porque como já falei cada um exige uma coisa. Eu desde muito cedo sabia que não queria me adaptar as exigências do mercado brasileiro, trabalhei neste sentido e hoje não sinto nenhuma resistência em trabalhar no mercado oriental.

O Independente - O que fez crescer sua paixão pela dança? E qual o motivo maior para continuar com ela?

Maíra Magno - A Suhair Zaki [risos]. Comecei a dançar por ter visto vídeos dela, e até hoje é o que mais me motiva. Claro que hoje vivo da dança, é minha profissão tenho também outros estímulos. Enquanto professora e coreógrafa tratar com o processo criativo me anima demais. Trabalhar com formas, sons, expressões, cores, gosto muito. Também gosto muito de viajar e conhecer culturas e povos distintos, coisa que só consegui através da dança. Mas até hoje assistir a Suhair dançar é a minha mola propulsora.

O Independente - Como é sua metodologia quando está dando aula? E o que você quer alcançar com isso?

Maíra Magno - Minhas alunas me chamam de Capitã Nascimento. Eu quero uma tropa de Elite! [risos]. Como sempre me incomodou muito o descaso com o “acabamento” da dança no Brasil, desde muito cedo trato minhas alunas como uma Cia. de Dança profissional. Acho um descaso o modo que algumas profissionais tratam o magistério em Dança do Ventre no Brasil.

Por que no Ballet Clássico temos de fazer 08 anos de aulas, além de ter de passar por vários testes para começar a pensar em ser profissional e na Dança do Ventre basta saber alguns passinhos? Vejo a Dança do Ventre, tão grandiosa como qualquer arte. São necessários tanto estudo, disciplina e dedicação para ser uma boa bailarina de Dança do Ventre, como para ser músico de uma orquestra. Pela grande influência do Mahmoud Reda no meu trabalho tenho uma vocação maior para trabalhar com grupos. Há professoras que se concentram no trabalho de solistas, eu me concentro nas coreografias em grupo.

Por saber que meu estilo é extremamente particular e não reflete de maneira alguma a realidade da Dança do Ventre no ocidente, eu freqüentemente trago bailarinas de reconhecimento nacional para Aracaju, para que minha alunas possam aprender outras formas de ver a dança e possam escolher o que mais se identificam.

Paralelo a este trabalho coordeno um projeto social chamado “Varrendo com Arte”, que surgiu em 2006 após uma apresentação feita nas comemorações ao dia internacional da mulher, promovida pela Sociedade Ecoar, onde ministro aulas gratuitas de Dança do Ventre para as agentes de limpeza pública e para o Sindicato das Empregadas Domésticas de Aracaju, neste projeto trabalho mais o lado de qualidade de vida ligado à dança.

Esse espetáculo que será apresentado agora dia 21 de dezembro no Teatro Tobias Barreto, que irei participar juntamente com a Escola de Dança Balanceio será o encerramento do ano da escola que também é voltada à inclusão social, com isso um grupo do projeto irá se apresentar, o que tornará mais uma oportunidade para as mulheres do Projeto “Varrendo com Arte” se sociabilizarem com bailarinos de outras linguagens da dança e realidade sócio-econômica.