Na última, terça 18, a experiente e premiada companhia de dança mineira 1° Ato apresentou um espetáculo impressionante e super moderno no palco do Teatro Tobias Barreto, “Geraldas e avencas” o tema da coreografia bem atual, corajoso, delicado e de grande relevância para ser discutido atualmente e de uma forma tão lúdica é: a padronização da beleza e a busca pela perfeição.Alex Dias disse, que esse trabalho com repertório é essencial para o deslocamento de ações estagnadas, uma vez que não permite o uso do mesmo corpo e das mesmas intenções antes utilizadas.
E fala que a história da companhia, suas viagens, experiências foi o ponto de partida que idealizou este espetáculo.
“Um corpo de 1999 não é o mesmo de um em 2008 para não falarmos de estrutura emocional, intencional, cênica, profissional. Pode parecer pouco, mas 9 anos de uma intensa agenda, de aulas e ensaios, de uma direção coerente, de terapias sem conta, de encontros, desencontros, reencontros propicia um olhar renovador em cima da obra. O desafio consiste em manter viva a proposta e ao mesmo tempo alimentá-la do frescor da idade alcançada, pois envelhecer pode não ser tão ruim assim. Hoje se vê uma procura tortuosa em estacionar o tempo, uma importância extrema com a aparência, com o enrijecer a pele, uma pele com o vigor alcançado pelas nossas escolhas. Observar essas questões, brincar em nossos desejos, apontar delicadezas foi o ponto de partida para proporcionarmos Geraldas e avencas."
Uma das companhias de dança mais respeitadas e duradouras do cenário contemporâneo nacional, que completou 20 anos de dança, companheirismo, resistência tem uma performance peculiar nos palcos, a companhia conseguiu impor uma personalidade e sua marca na dança nessas duas décadas. Luciana Lanza fala que “o gesto nasce do cotidiano, já as coreografias surgem em diálogo com outras manifestações, como o teatro, circo e artes plásticas, sempre inspiradas na experiência pessoal dos bailarinos.”
No espetáculo Geraldas e avencas muito se faz pouco se conserva. Colocado o fato da busca frenética pelo vigor jovem, descartar rugas é descartar tempo. Pertinente as apresentações conjugadas quando se aposta em repertório, em valorizar a história. A apresentação é pura plástica, movimento o tempo todo, mostrando a mecanização das pessoas, a futilidade apresentadas nas passarelas, da indústria de cosméticos que bombardeiam a mídia incessantemente o comércio das cirurgias levando a transformação da mulher e do homem em “máquinas perfeitas.”
É gostoso, provocador exalta a delicadeza, destaca o belo na imperfeição, a pessoa em si, em seu mundo de torturas e defeitos numa época obcecada pela estética, pela forma absoluta e irreparável. Uma aldeia de condenados e cárceres da perfeição, do botox, do silicone, do enxerto, das plásticas sucessivas e perseguidoras, da ânsia em paralizar o tempo. O espetáculo mostra uma verdadeira ditadura das aparências, mas sem perder a ternura, a poesia e mesmo a compaixão. Nele vemos uma alternância de temas mais irônicos e bem-humorados com outros mais lúdicos.
A trilha sonora de Zeca Baleiro foi o casamento perfeito, construída e montada depois da coreografia pronta. Só um gênio musical e poético como Baleiro para conseguir tal feito, cada movimento casa perfeitamente com o ritmo, as batidas e o tema abordado. Uma verdadeira sinfonia para o deleite de todos os sentidos.
Um verdadeiro presente em forma de arte e lição, que se soubéssemos jamais perderíamos, puro alimento para nossa cultura, alma e elevação da sensibilidade, capaz de levar ao gozo de sensações enebriantes, através de um balé que olha para o contemporâneo e reproduz, em música e coreografia, com beleza e uma crítica irônica, que traduz o surpreendente propósito de caracterizar a desconformidade da atualidade.

